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domingo, 5 de janeiro de 2014

Nunca achei que um dia eu pudesse te querer assim.

Quer dizer... Te querer eu sempre quis.
Ainda me recordo das vezes em que eu dormia em sua casa,
era um virado pra cada lado.
Se nossos rostos se encontrassem logo pensava, vai dar merda,
e era justamente o q acontecia, na madrugada sem querer me apoiava em seu braço e nossos olhos se cruzavam e com medo do que você ia pensar, virava logo pra posição inicial.
E com você era a mesma coisa, pensava , assim como eu,
que ia dar merda aquele rosto ali.
Que o rosto ia virar uma respiração ofegante, depois uma boca e logo mais aquele beijo, dai pra gente ficar todo embolado era um pulo e no dia seguinte ia ter que dar explicação ou continuar alguma coisa que a gente não tava pronto pra continuar.
E era assim:
A gente se vendo dormir, perdendo o sono, e com o lado direito do corpo todo torto e o pescoço adormecido, de tanto ficar na mesma posição.
Mais até que a gente curtia, mal chegava o fim de semana e você já chegava dizendo bora lá pra casa?!
A horas passavam e quando já era bem tarde você dizia:
 Hoje você dorme aqui e eu nem pensava duas vezes antes de aceitar,
abria seu guarda-roupa e pegava uma camisa qualquer.
Eu acho que você lembra como era uma merda. Por que no dia seguinte você tinha seus problemas, e eu tinha o meu ideal de solidão.
Eu vivia sozinha cercada por um monte de gente, só com você eu não era. Ficava preocupada, tensa, e você mal sabia o que falar.
Aí a gente tomava um porre e se amava pra caralho e depois ficávamos vianjandinho, filosofando sobre tudo, principalmente de como era frustrante, como dizia Cazuza, ser porra louca e não saber amar.
Eu mordendo os lábios, tentando ser o menos óbvia possível.
E você tagarelando sobre aquele porre homérico e do tapa que eu te dei todo desajeitado, mais pra exprimir raiva do que pra machucar,
naquele tapa que eu sofri por ter te dado e pedi desculpa até não poder mais, foi ali que tu disse que percebeu o que a gente tava fazendo.
Eu lembro de estar morrendo de medo na hora de ir embora por que éramos nós dois e mais um monte de gente e eu sem saber se você ainda era meu melhor amigo.
Aí cada um foi ficando num canto, uns nos ônibus, outros nos metrôs, alguns
nos táxis
e a gente continuou seguindo pra sua casa, só nós dois.
Enquanto a cada passo mau coração acelerava mais, pois sabia que você ia perguntar. E você perguntou.
E quando perguntou, me deu o braço rindo e indagando o que foi aquilo de ter me enfiado o tapa na frente de cinquenta pessoas?!
Você morreu de rir da minha falta de jeito, de vergonha na cara e de explicação.
Foi ali que eu pensei caralho, nunca vou deixar de gostar desse carma'.
Você fazia parte de mim, da minha vida, da minha história.
E foi nesse dia, bem ali em plena Afonso pena que você começou a fazer planos. Nada daqueles planos solitários que você tinha. Você me incluiu nas viagens, nas casas, em todos os lugares.
Nem perguntou se eu queria.
Falava "aí a gente vai pra lá, depois a gente vai pra cá e depois a gente volta, e se bobear a gente NEM VOLTA", e ficava falando eu ficava escutando quieta de tão bom que era escutar.
Depois de tanta volta, tanta coisa, tanta gente, eu percebo que o que eu quero não esta na mesa do bar (apesar de gostar muito da mesa do bar), não está na madrugada de porres intermináveis, muito menos em meio a essa multidão de gente cheia de si e vazia de tudo.
Ainda gosto de tudo isso, assim como sei que você também gosta.
Mas no meio da farra a gente se entreolha e percebe que é hora de voltar pra sua casa. E como é bom voltar pra lá.
As vezes a gente conversa e pergunta se é a sobriedade da idade dando as caras. Se é o cansaço desse povo que nunca muda mostrando todo seu significado que a gente achava que ia durar e ser foda pra sempre.
Que eu nunca ia parar de pegar o marley e que nunca ia precisar dormir direito. Na verdade a gente nunca soube do que precisava.
Mas agora sabe.
E tem sido bom assim.
Tem sido bom os nossos problemas, as compras de supermercado, as nossas divisões, a volta pra sua casa, que ultimamente tem sido mais minha do que sua, o que você é, o que eu sou, o que a gente virou.
Acho que nunca me senti tão infinita como me sinto quando te tenho por perto, ninguém nunca me completou como você completa,
só transbordo por inteiro quando te tenho do lado.
É... Acho que nunca gostei de alguém como eu gosto de você.
 
Mari Carazolli